23/11/2009

O longo caminho pra casa - Parte 3: Pela estrada afora...

O Coelho é um cara experiente. Aparentemente foi ele quem levou de caminhão a mesa, as toalhas, as taças e pratos para a Santa Ceia. Ele dirige caminhão a tanto tempo que eu até acho que o caminhão foi inventado depois que ele aprendeu a dirigir. Mas nem tudo isso foi suficiente para nós não nos perdermos em uma cidade cujo o nome eu não me lembro (nem me esforço para tal). Sei que seguimos uma placa que dizia que a cidade para a qual queríamos ir era em frente, mas o problema era que em frente haviam 3 ruas diferentes e sem mais nenhuma sinalização específica que indicasse que estávamos no caminho certo ou mesmo uma placa que informasse que estávamos no caminho errado. Malditas placas que nunca estão lá quando se precisa delas.

Seguimos em frente. E quando digo "seguimos", eu quero dizer que seguimos mesmo em frente. Fomos, fomos, fomos, fomos... (Coloquei reticências para não ter que escrever mais algumas centenas de "fomos".) Eu perguntei se "por acaso estávamos mesmo no caminho certo", e o Coelho como é um cara experiente e sabe o momento certo de dizer as palavras certas, disse: "Rapaz, acho que não." Caramba! Ele só foi "achar que não" na hora em que perguntei? Ou seja, se eu não tivesse perguntado era capaz de estarmos naquela mesma estrada até hoje.

Ele disse que na hora em que encontrássemos alguém pela frente, perguntaríamos se o caminho para onde queríamos ir era por ali. É claro que ver alguém naquela estrada estava se tornando algo realmente difícil de acreditar. Já tínhamos seguido, seguido, seguido, seg... Bem, você já entendeu. Encontramos um rapaz que estava de moto e conversando com uma moça. Se eram namorados ou apenas amigos eu não sei. Estavam em frente de uma casa que não parecia assustadora e apesar de estar chovendo, ser uma noite escura, aquele casal ser os únicos seres humanos num raio de "vai saber quantos quilômetros", nós não tivemos medo. Digo, o Coelho não tive medo e como ele já foi abrindo a janela do caminhão e conversando com o rapaz, eu nem tive tempo de ficar com medo.

-Oi.
-Oi
-Você sabe se essa rua vai para Umacidadequeoautordopostnãoselembraonome?

Eu não tenho certeza, mas me pareceu que o cara tentou engolir uma gargalhada. Ele olhou pra moça com aquela cara de quem pedia pra ela também não se jogar no chão e ficar pulando e chorando de tanto rir da cara da gente.

-Não, não. Você estão bem longe. Deveriam ter entrado na do outro lado.
-Certo. A gente volta por essa rua e chegando no cruzamento a gente segue pela direita?
-Sim, pela direita de quem vem.
-Ou seja, a esquerda daqui pra lá?
-Sim. Digo, na realidade, agora que o senhor perguntou, eu fiquei em dúvida. Mas é à direita sim.
-Certo. Direita de quem vem?
-Acho que sim.

Acha! Isso! Ele disse que acha. Nós estávamos quilômetros fora de nosso caminho e iríamos seguir a dica de alguém que "acha". Pode até ser que ele ache, mas nós com certeza não "acharíamos". Mas por sorte ele (poderia esconder o rosto debaixo do capacete) se ofereceu para ir na nossa frente e para irmos seguindo-o pela rua que já tínhamos passado tanto tempo. Fazer o quê? Seguimos o motoqueiro. E lá foi, foi, foi, foi, foi, foi, foi, foi, foi... Foi seguindo por aquela rua e nós atrás. Chegamos no cruzamento que havia nos feito errar o caminho e o motoqueiro parou e disse: "É por ali, boa viagem!" O Coelho até tentou oferecer dinheiro pro cara, mas acho que o cara queria ir embora logo e ligar pra sua namorada/amiga/sei lá e dizer: "Agora pode rir!"

Depois que conseguimos voltar para o nosso caminho o Coelho resolveu parar para descansar num posto de gasolina. Óbvio que não íamos pagar hotel, ele já tem o costume de dormir dentro do caminhão mesmo. O problema é que eu não. Eu não tenho costume de dormir em caminhões e aliás, eu nem tenho o costume de dormir, imagine num caminhão. Enquanto ele dirigia o caminhão eu até dava umas cochiladas, mas enquanto eu dava essas cochiladas ele conversava e me fazia perguntas que geralmente continuavam recebendo as mesmas respostas lá do segundo post sobre a viagem. Quando ele parou o caminhão, pareceu que um despertador (com o barulho do sino da igreja tocando axé) tocou em meu cérebro. A partir dali eu não dormiria mais enquanto o caminhão não voltasse a se mexer.

Ele se encostou no banco e mal falou que ia dormir, já estava dormindo. Eu, pelo contrário, sabia que a noite ia ser ainda mais longa que quando estou em casa. Pensei em pegar meu celular e ficar ouvindo músicas lá fora enquanto ele dormia, mas estava chovendo. Ele parou o caminhão fora da cobertura do posto e eu não tinha como sair do caminhão enquanto não parasse de chover. Graças aos céus a chuva parou. Aproveitei para sair do caminhão e ir soltar um xixi que já era prisioneiro de meu organismo há algum tempo. Coitado já acreditava em prisão perpétua, mas foi liberado por bom comportamento (leia-se "não me ter feito mijar nas calças com o balanço do caminhão").

Realmente percebi que estava com muita vontade de fazer xixi, pois o barulho que começou a fazer e a quantidade xixi que estava caindo já parecia molhar meus pés e toda a roda do caminhão. Aliás, já parecia molhar todo o caminhão, parecia estar molhando até minha cabeça... Caramba! Começou a chover de novo!!! Corri pra dentro do caminhão. São Pedro tinha me dado uma chance de ir fazer xixi, mas pelo visto ele achou que eu já estava abusando e recomeçou a chuva. E lá estava eu dentro do caminhão ouvindo músicas de vários estilos e tentando fazer com que o tempo passasse muito mais depressa. Óbvio que não rolou. Cada minuto parecia umas 12 horas. Insônia é algo muito ruim e acho que eu sofro de um tipo de insônia "Beta", ou seja, ela vai se aperfeiçoando cada vez mais. Como eu nunca tinha tido a necessidade de dormir num caminhão, a insônia foi iniciando uma nova técnica para me manter acordado.

Já não bastavam os roncos do meu colega de quarto, digo, boleia. Era uma madrugada de sexta para sábado, estávamos num posto de gasolina relativamente longe do centro da cidade (fosse qual cidade fosse), o que o tornava um local muito propício para carros com sons altos e bebedeira ilimitada. Muitos homens e algumas mulheres estavam ali para se divertir (e com sorte alguns se acasalariam) e curtir a noite adentro. Isso com certeza ajudou muito a minha insônia que adorava criar novas ferramentas para atrapalhar meu sono. Creio que naquela noite tenham sido criadas algumas ferramentas específicas sobre sons de carros, de roncos, de música alta (sim, porque eu estava ouvindo música no mp3 do celular, mas quando eles chegaram eu já não ouvia mais nada do meu celular)... E quando eu digo música, estou apenas generalizando a propagação de som, pois ali só tocavam funk e pagode.

PS: próximo post é o capítulo final... Eu acho.




18/11/2009

O longo caminho para casa - 2ª Parte: 40 por hora...

Quando saímos o Coelho já avisou que a viagem poderia ser demorada (como se eu já não o conhecesse e soubesse que é ÓBVIO que seria demorada). Nós saímos de Canoinhas-SC por volta das 17 horas da sexta-feira com destino a Ubiratã-PR. Tudo ia bem, apesar do caminhão não parecer ir tão bem já que no caso, me parecia que a dona Tartaruga iria mesmo ganhar a corrida com aquele "Coelho". Mas é claro que pra isso a Tartaruga precisaria ir um pouco mais devagar, senão nós nos transformaríamos em retardatários logo logo.

É lógico que como havia uma mudança em cima da carroceria (e era minha) ele deveria mesmo tomar cuidado. Problema é que o cuidado dele envolve pelo menos umas 10 horas a mais de viagem. Tinha horas que eu até parecia ver um capacete de automobilismo na cabeça dele e isso ocorria toda hora que ele se empolgava e começava a "correr" a uns 60 km por hora (Rrrrrrubens, rrrrrrubens, rrrrrrrrubens Barrichelo do Brasil!!!). E lá íamos nós sendo ultrapassados por carros, motos, outros caminhões e acho que até algumas árvores pareciam estar nos ultrapassando. Claro que eu poderia estar sendo enganado pelo sono (ou pelas árvores mesmo). Quando penso em alguém escondido, logo penso em alguém escondido e saindo de trás duma árvore gritando: "Surpresa!!!" Daí tentei não imaginar uma árvore saindo detrás de outra árvore e gritando: "Surpresa!!"

E se o sono já me fazia mal (e com a insônia que eu tenho, era óbvio que o sono ainda ia me incomodar muito), a fome também começava a cooperar para meus delírios e desespero. Começou a escurecer e enquanto o caminhão aparentemente se locomovia eu dava umas "pescadas" e parecia que iria dormir. O "movimento" do caminhão parecia estar me embalando e me fazendo aproveitar o sono para esquecer a fome. Duro é que ninguém viaja sem conversar com o "carona". O Coelho sempre perguntava ou afirmava alguma coisa, mas sempre esperando que eu dissesse algo. Claro que na maioria do tempo o "algo" que eu dizia era no máximo um "uhum" ou um "é". Creio que pra ele isso já era suficiente. Se não era, ele não reclamou e eu não mudei em nada minhas frases monossilábicas. Só disse algo mais quando, por volta das 20:45 chegamos em frente a um restaurante que tinha o atendimento e a comida de um boteco, mas com os preços de um restaurante francês. O Coelho perguntou:

-Vamos jantar agora?
-Vamos sim. (Topo, topo. Por que não? Vamo caí pa dentro!)

Adentramos o recinto já com certeza de que não iríamos comer tanto assim. Era dia do último capítulo da novela Caminho das Índias (tá, tá, tá, eu sei) e eu realmente queria assistir. Fazer o quê? Eu estava sozinho em casa nas últimas duas semanas, desempregado e sem ter o que fazer, resolvi assistir a novela e é claro que eu queria ver o último capítulo. Consegui assistir o comecinho, mas o volume da TV estava muito baixo e ficava difícil, pois leitura labial realmente não é meu forte. Mas tentava com todo o esforço possível ouvir os "are babas" e outras coisas ditas ali, mas eis que chega uma turma de argentinos (sem preconceitos, mas só podia, só podia) numa gritaria absurda.

Eles conversavam tanto e sobre tantos assunto e tão rápido e com tanta empolgação e com tanto volume e com tanta vontade de ser ouvidos, que pra mim aquilo era parecido com um show de rock. Um show de rock argentino e ruim, mas com o volume no talo. Com isso tudo, é claro que a minha intenção de assistir o último capítulo da novela já era. Fazer o quê? Teria que assistir a reprise no sábado, caso desse tempo de chegarmos antes da novela ter começado (ou terminado).

Aproveitei o período que convivi com colombianos na pensão em Canoinhas-SC para tentar entender o que diziam ali. Eu entendia algumas pouquíssimas palavras, pois além de eles falarem um pouco diferente dos colombianos, eles não estavam conversando comigo, portanto não falavam devagar e nem repetiam o que eu não entendesse. No geral o que eu consegui entender era algo como:

-Usted sabrionbla que una estatorfjlmaniiuruhfyroepskanirpqrs?
-, pero no mucho!
-Es una heuorkpojodbvlvpioryuepwçslroinasd...
-, , , ... (Aliás: , , , , , , ...)

Realmente não dava pra eu entender. Se eu me esforçasse mais, eles com certeza iam perceber que eu estava tentando ouvir a conversa e provavelmente iriam me perguntar "por que eu tava encarando?" e eu provavelmente não iria entender e teria que encarar ainda mais para tentar entender e no fim das contas a velha rixa entre Brasil e Argentina se transformaria numa nova rixa entre Brasil e Argentina. Isso é realmente algo que eu não queria, pois eles estavam em maior número e com a força que eu tenho em meus músculos, eu já apanharia de um, imagine de quatro. Aliás, quero dizer de quatro argentinos, pois ao dizer que "apanharia de quatro" poderia transformar este post num problema para minha masculinidade.

Comemos aquele arroz, feijão e carne de frango (com carne de boi seria mais caro) e fomos pagar. O Coelho tomou um cafezinho (que não era gratuito) e depois de sermos esfaqueados por aquela conta, resolvemos seguir viagem. Poucos quilômetros (ou metros, perdi a noção de velocidade-espaço-tempo) depois encontramos uma cidade. Entramos na cidade seguimos, seguimos, seguimos, seguimos e eu notei que estávamos seguindo demais. O Coelho também notou isso. De acordo com ele nós "entramos em alguma rua que não devíamos". A viagem já seria longa e com esse pequeno desvio no nosso trecho eu só consegui pensar uma coisa:

-Me fudi! Certeza que não assisto nem a reprise da novela!

Mas calma, amigo leitor. Ainda acontece muita coisa nessa viagem, portanto fique agora com as cenas do próximo capítulo:

"É por ali senhor, me siga!"
"Uma cerração que parecia sólida..."
"Algumas pessoas dormem com silêncio, outras com barulho e outras, como eu, não dormem..."
"Caramba! Nunca pensei que um energético era tão caro."

11/11/2009

O longo caminho para casa...

Eu já estava "desempregado" há quase duas semanas, ou seja, dormia tarde ou nem dormia. Minha insônia é ainda pior quando eu não tenho nada para fazer. O Coelho (nome, aliás sobrenome real do homem que foi buscar a minha mudança para trazer pro Paraná de volta) chegou por volta das 9 da manhã e perguntou se eu havia dormido tarde e eu respondi a única coisa que eu poderia responder naquele momento: "Uuáááá! (Isso seria um bocejo...)" A mudança já havia sido toda preparada por mim, tudo foi organizado por mim, tudo foi lembrado por mim e isso significa que a coisa não estava muito bem feita.


Liguei para um amigo que já havia se oferecido pra me ajudar, o seu Osíris, que veio com toda boa vontade. Quando começamos a colocar as coisas no caminhão, fomos percebendo que muito coisa poderia estar melhor organizada, ou no caso, "estar organizada" para facilitar. Mas mesmo com uma coisinha pra ajeitar aqui e outra pra procurar acolá, conseguimos colocar tudo no caminhão. O Osíris já tinha me ajudado quando a mudança chegou lá e estava me ajudando também na hora de me mandar de volta. Aliás ele está emagrecendo com um regime que ele faz lá à base de carne, muita carne... Pensando bem é um ótimo regime. E pensando bem, isso não tinha nada a ver com o assunto.

Acertei o aluguel da casa, a luz e a água (sou pobre mais sou limpinho) com a mãe do dono da casa que eu estava morando e me despedi. Fui para o caminhão com a clara certeza de que estava me esquecendo de algo. Mas o Coelho deu tempo pra eu pensar, esperou pra ligar o caminhão, perguntou se não faltava nada... Mas só consegui lembrar que tinha esquecido alguma coisa quando andamos uma quadra inteira e eu senti um vento um pouco mais friozinho... "Minha jaqueta, esqueci minha jaqueta, pára, pára, pára (sei que na nova ortografia não tem acento, mas os meus gritos tinham acento sim). Vou lá pegar!" Busquei minha jaqueta com o meu carregador e fone de ouvidos do celular. Tudo pronto para seguir viagem, exceto por um detalhe, ainda tínhamos que pegar outra mudança de um amigo meu que também estava vindo pro Paraná (aliás, acho que aconteceu uma baita debandada de locutores de lá).

Fomos até a casa do Fabinho e no caminho passamos em uma "padaria" que não tinha café, não tinha pão, não tinha molho de pimenta ou qualquer outro molho pra gente por no salgadinho que também não tinha. Acho que a única coisa que tinha na padaria em questão era o nome de padaria. O coelho comprou umas bananas e eu pensei em perguntar se tinha água, só pra ver se ele ia me oferecer da torneira ou pior, iria me dizer que nem tinha água encanada ali. Resolvi ficar na minha, pois como eu não havia me irritado até aquele momento, não havia necessidade de eu me irritar por causa de uma padaria malfadada.

Quando chegamos na casa do Fabinho ele me perguntou pela 12458ª vez se não tinha como ele ir no caminhão junto com a gente e pela 12458ª vez eu disse que "não, pois o limite de pessoas na cabine era 3 e somando eu, o Coelho, ele, a mulher dele e a filha dariam 5 pessoas (já descontado o meu peso e o da filha dele), ou seja, 40% acima do limite permitido, além do fato de criança não poder viajar na cabine do caminhão." Mas era óbvio que ele ainda ia me perguntar aquilo mais tarde na hora em que a mudança estivesse em cima do caminhão. Acho que ele está com amnésia seletiva, ou seja, tudo que eu disser ele vai esquecer, não importa como, quando ou quantas vezes eu disser. Nem dá nada, eu já decorei a resposta mesmo.

Como ele não havia ido me ajudar na minha mudança, eu também não precisava ajudar na dele. A mudança dele era menor, já tinha um companheiro lá pra ajudar, a mulher dele estava lá também e tinha organizado tudo, seria bem mais fácil é claro. Isso foi o que minha mente despreparada para o estilo "fabinhesco" de fazer as coisas pensou. Além de minha mente não estar preparada, eu também estava com um pequeno déficit alimentar por culpa da "padaria" citada anteriormente. Eles realmente começaram a fazer o carregamento sem minha ajuda, mas eis que num momento o cara me chega e diz que vai comprar as passagens de ônibus pra ir pro Paraná.

Sacaram? Ele esperou até o último momento sem comprar a passagem. Ele ainda tinha esperanças que a gente viesse num caminhão com duas mudanças e cabine lotada de gente. Ele realmente achou que aquele caminhão de mudança fosse um veículo coletivo. Além de tudo isso que já seria terrível, ainda tinha o detalhe "maxifabinhesco". Ele ia comprar passagem e a mulher dele não tinha feito o esforço nem de dizer pra ele fazer alguma coisa, imagine se ela ia ajudar a carregar alguma coisa? Ele ia rapidinho comprar as passagens (caso ainda tivesse passagens) e pediu pra eu ir ajudando. Fezes, fezes, fezes!!! Por que eu não consigo ser uma cara rude de verdade, daqueles que diriam pra ele ir se foder e se ele não terminasse de fazer aquela mudança eu ia jogar tudo que estava em cima do caminhão e fosse pertencente a ele no meio da estrada? Por que não sou assim? Fui ajudar e coincidentemente a máquina de lavar que pesa metade do limite permitido para a carga do caminhão estava lá no chão. Estava lá esperando que eu utilizasse minha força para ajudar a levantá-la. Ó vida, ó azar!

Realmente eu deveria ser mal, muito muito muito muito (muito mesmo) mal e deixar aquela máquina por lá. Aquilo era mais pesado que um tanque, e olhe que tanques de concreto são pesados, pois já carreguei alguns em mudanças (com a ajuda de mais alguns parceiros) e de uns tempos pra cá, quando resolvo me mudar vou deixando os tanques pra trás e torcendo para ter na nova casa. Se não tiver a gente dá um jeito e gasta uma graninha que às vezes até sai barato em relação ao peso que não precisamos carregar. Meu irmão sempre se ferrava com esses tanques. Mas ele tem que sofrer mesmo, quem manda ter músculos? As pessoas olham pra ele e pensam: "Esse cara aguenta peso, olha os músculos dele!" Quando olham pra mim pensam: "Coitado do gordinho, certeza que mal aguenta a barriga!"

O problema é que tem certas pessoas "fabinhescas" que não têm esse tipo de noção. E lá fui eu fazer uma força absurda para levantar uma máquina junto com mais alguns "cabras". Coisa de louco. Tenho certeza que se o Coelho não tomasse muito cuidado os guardas iriam parar o caminhão de tão rebaixado que estava. Até imaginei a frase no pára-choque do caminhão dele: "As formigas que se abaixem!"

Quando toda a mudança estava sobre o caminhão eu já tinha certeza que a viagem ia ser boa e com certeza teria muita paz, pois eu já tinha pago todos os meus pecados e não foram nem com minha própria cruz, foram com a cruz "fabinhesca". Mas é óbvio que não foi bem assim. Pagar pecados de verdade tem muito mais sofrimento. Calvário que é calvário de verdade tem todo um caminho a percorrer. Aquilo ali tinha sido só as primeiras chibatadas. Ainda faltava muita coisa até chegar ao momento da crucificação dolorida e provavelmente minha mãe não estaria esperando com nenhum manto, pois ela não iria utilizar um manto branco que ela teria acabado de lavar pra sujar com o meu sangue, suor e lágrimas...

E isso foi só o começo mesmo. Senta que nos próximos posts vem história...

02/11/2009

VIP - Very Important Post...

Esse é aquele post que ficou guardado na gaveta durante muitos dias. Na realidade, a gaveta citada é minha cabeça. Uma gaveta grande arredondada (que se destaca ainda mais por causa da calvicie) e com certeza com alguns parafusos a menos. Esses parafusos a menos apenas fazem com que essa gaveta fique meio sem firmeza, mas não significa que tudo se perde. Algumas coisas caem atrás do armário do cérebro, mas com uma pequena faxina dá pra se recuperar uma grande parte desse material.

E como já faz um bom tempo que eu não posto nada aqui no blog, por causa de problemas profissionais e alguns pessoais também, eu fiquei um longo prazo apenas olhando para o vento e tentando colocar minha vida nos eixos. Se consegui? Acho que não, mas com certeza já está melhor que estava quando eu escrevi o post anterior a quase dois meses atrás.

Tem umas historinhas pra contar, e como cada uma delas dá um post diferente, eu resolvi apenas criar este post de retorno. É um post importante, pois com ele eu espero reinaugurar a minha linha de raciocínio (aliás, esta palavra me deu trabalho para elmbrar como se escrevia) aqui no blog. Não que eu tenha uma "linha" de raciocínio propriamente dita. Minha linha de raciocínio (agora vou aproveitar e escrever várias vezes) é um tipo de linha de crochê que um gato passou e resolveu sair brincando e jogando pra lá e pra cá. Dessa maneira, uma linha que já é enrolada num novelo, se torna toda emaranhada e vira uma bagunça extrema.

Não tenho conseguido levar uma idéia adiante do princípio ao fim com um único tipo de "raciocínio". E quando digo "não tenho conseguido", quero dizer nos últimos 30 anos. Desde que nasci. Me lembro quando escrevia redações na escola. Creio que as professoras me davam notas boas pela complexidade daquele texto tão "elaborado" que elas tinham em mãos. Eu consegui fazer os meus colegas de classe rirem (quando tinha apresentação oral das redações) até quando fazia textos sobre a Semana da Pátria.

Acho aliás que essa falta de coerência no que eu escrevo ou falo, existem desde que nasci. Não posso relatar isso com certeza, mas creio que se todos os bebês que minha família conhecia diziam "gugu dadá", eu com certeza dizia "guda gadu" ou algo assim. Minha mãe diz que eu era muito chorão quando bebê. Acho que isso pode ter alguma razão na minha afamada linha emaranhada de raciocínio. Provavelmente eu chorava de rir de meus próprios pensamentos que eu não conseguia traduzir em palavras, e quando tentava saía no máximo um "pá" ou "má", ou ainda um "acumanananalacumepacossilala" que significava coisas muito engraçadas se fossem traduzidas. Mas hoje em dia isso não vem ao caso.

Esse post de retorno de Jedi... Digo, de Gilgomex, é apenas isso. Um post de retorno. Mas vou tentar organizar a gaveta e a linha de raciocínio para contar como foi minha mudança e minha viagem de volta pra minha cidade e alguns acontecimentos recentes, e até alguns acontecimentos bem antigos mas que estão retornando com força total à minha mente. Acho que é aquela faxina feita atrás do armarinho que está começando a dar bons resultados.