Quando me levantei com aquela disposição característica aos animais que andam com cascos nas costas (tartarugas e caracóis), já notei que a única calça limpa e passada era a minha calça mais cara. Nem era tão cara assim, mas com certeza era muito cara para meu orçamento. Coloquei aquela calça que eu tanto gostava (tinha que gostar, afinal dava pra comprar outras 3 com o preço dela), uma camiseta (que Deus a tenha em bom lugar) e meu par de tênis menos velho.
Fui trabalhar (sim, escovei os dentes antes, mas não ia citar esse detalhe). Fiz o jornal com uma certa dificuldade, já que as letras pareciam dançar rumba em minha frente. Tenho certeza que algumas palavras devem ter modificado todo o significado de alguma notícia, mas creio que ninguém notou, pois ainda estou empregado. Terminei o jornal e fui para o estúdio de gravação pensando em me aconchegar no sofá que tem lá dentro (sabe Deus porquê). Não deu certo. A secretária chegou mais cedo, a moça da limpeza chegou mais cedo, o serviço chegou mais cedo... Nada de sofá para você, Gilgomex.
Problema é que moça da limpeza (que também faz o cafezinho) chegou mais cedo, mas o café não. Não sei pra que chegar tão cedo se o mais importante que é o café vai demorar tanto. Mas tudo bem, o café chegou e meu dia finalmente começou a clarear. Fazer o quê? Preciso de combustível também. Consegui fazer todo o trabalho de boa e não via a hora de chegar o almoço pra eu ir pra casa, comer um pouquinho e aproveitar pra tirar um cochilo sonhando com a Renata Fan (pois com certeza dormiria no sofá assistindo Jogo Aberto, e não gostaria nada de sonhar com o Dr. Osmar).
Mas é claro que minha senhora não pensava dessa maneira. Disse que eu tinha que levá-la até o ponto onde ela pega a van pra ir trabalhar e ainda ir no mercado comprar banana porque minha filha tinha pedido. Eu disse que não ia levá-la e que compraria depois das 18 na hora em que eu saísse do serviço. Estava decidido!
Levei ela e fui para o mercado comprar bananas, laranjas, milho verde e ervilhas enlatados, Baconzitos (novo vício é uma merda) e miojo (velho vício também). Com tudo isso e mais o capacete dela no meu cotovelo eu resolvi ir logo pra casa. Como meu irmão sempre diz, eu com pressa sou tão rápido quanto a maioria passeando no parque. Estava nuns 60km/h, na avenida principal (que por consequência é a preferencial) e cuidando de tudo e todos ao meu redor.
No cruzamento da avenida principal com Avenida dos Pioneiros (que já foi citada aqui no blog sem muito carinho) eu vi um Gol verde, do Conselho Tutelar. Notei que a motorista era uma cidadã consciente que parou para um velhinho passar. Mas... E sempre, sempre tem um "mas"... Ela é uma cidadã consciente, mas o velhinho não parecia estar tão consciente assim. Ela parou e ele parou também. Quando ela percebeu que ele não ia mais, resolveu ir. Sim. Ela foi. E eu que tinha visto que ela já tinha parado também fui. Só que eu a vi, mas ela não me viu. Mesmo a 60 km/h, se um carro que está a poucos metros decide de uma vez que vai cruzar na sua frente, dificilmente os freios irão evitar um "tum". Não evitaram.
Na realidade eu consegui dar uma freada até boa, mas o pneu da frente da moto tocou no pneu do Gol. Esse pequeno toque fez a moto girar e cair. A frente da moto virou um "regaço". Minhas sacolas voaram, o miojo e o Baconzitos viraram pó, a lata de milho virou cural e a de ervilha se salvou apenas com pequenas escoriações. As bananas foram heroínas. Conseguiram sobreviver praticamente sem nenhum arranhão. Ao contrário de mim...
Na hora em que caí meu braço já ia ficando entre o pneu da frente e o de trás do Gol. Por algum milagre eu tive um bom reflexo (algo não muito costumeiro) e consegui tirar o braço no último milésimo de segundo. Se não fosse reflexo, eu provavelmente não estaria escrevendo este texto. Pelo menos não com as duas mãos e os 4 dedos que uso (sim, fiz curso de datilografia (???), mas só sei digitar com 4 e às vezes 5 dedos). Mas por sorte, tive apenas um arranhão no braço (ARRANHÃO mesmo, pois ficou feio o negócio), um cortinho no dedo e ralei também os dois joelhos. E minha camiseta até parecia ter sobrevivido na hora, mas não resistiu aos ferimentos e se foi, coitadinha. Suas irmãs até hoje não se conformam e de vez em quando pego alguma de minha camisetas molhadas dentro do guarda-roupas. Creiam que estavam chorando até a hora em que fui pegá-las. Ou isso, ou minha senhora tem colocado camisetas úmidas no guarda-roupas.
Se a camiseta que parecia apenas ter tido alguns cortes superficiais e se sujado, não sobreviveu, imaginem a calça.Coitada. Teve um corte profundo na região do joelho. Em mim fica no joelho, mas pra ela, pobrezinha, aquilo foi um corte profundo no coração. Não houve escapatória. Também se foi.
De fato, apenas meu tênis sobreviveu. Teve algumas sequelas. Um pequeno corte próximo ao dedo polegar direito, mas nada de tão grave. Acho que no caso dele o que prejudicou mesmo foi o trauma. Hoje em dia quando pego o capacete antes de colocá-lo nos pés ele já se encolhe todo. Tenta até se esconder, mas por ser um objeto inanimado, fica lá sofrendo e torcendo pra que eu pegue o All Star.
Me levantei, a mulher parou o carro e veio perguntar se estava tudo bem. Tudo não tava, né? Mas ela se ofereceu para pagar o conserto. Se ofereceu para pagar as compras. Mas não se ofereceu para pagar a calça. Eu estava atordoado ainda pela perda de tão queridas peças, que nem consegui cobrar. A polícia chegou. Entreguei a carteira na boa e ainda disse, tá tudo certo, vence dia 18 de Novembro... Mas já estávamos em Dezembro. Acho que era entre dias 10 e 15. Mas tudo bem, pois parece que existe um período de carência. Tive sorte neste caso.
A mulher disse pra eu ir pro hospital. Mas com uns arranhões eu nem liguei, disse que não precisava e ela me pediu pra ir pelo menos na farmácia pra fazer a assepsia (bonita palavra, espero que eu tenha escrito corretamente). Aceitei. Era por conta dela mesmo. Chegando na farmácia o rapaz que atendeu foi bem simpático e me tratou muito bem... Mas como eu sempre digo para mim mesmo: "Não confie em pessoas simpáticas demais!" Aquilo era um disfarce. Ele era um sádico torturador violento. Pegou um vidrinho e disse: "Vai doer!" Bem, pelo menos ele avisou. Doeu mesmo. Mas tudo bem, foi uma dor tranquila e ele percebeu isso. Sei que ele percebeu.
Outro vidrinho em sua mão. Ele olhou pra mim e dessa vez resolveu sacanear. "Não vai doer. Esse é só dar uma anestesiada." Eu pensei que estando anestesiado, com certeza doeria menos. Ahhhhh tá! Na hora em que apenas uma gota daquilo tocou em minha pela parecia que o próprio Mefisto pegou o seu tridente ardendo em brasas e cutucou meu braço. Foi uma dor escandalosamente grande. E quando digo que a dor foi escandalosa é porque não quero dizer que eu quase fiz um escândalo ao sentir aquilo no meu braço. Me segurei ao máximo. Se eu tentasse forçar meus dentes, com certeza os de cima atravessariam os debaixo e vice-versa. Não tentei fechar os olhos, pois se fechasse talvez não tivesse mais forças para abrir. Mantive os olhos abertos. Uma pequena e solitária lágrima fujona correu pelo meu rosto. Foi apenas uma gotinha, mas ela estava representando todas as suas milhares de irmãs e primas que conseguiram se manter firmes e apenas torceram para que ela fizesse uma boa viagem.
Liguei para serviço avisando que eu não iria. Não dei tempo para o patrão perguntar se realmente não dava pra eu ir trabalhar, pois sei que ele perguntaria. Se quando a mulher de um amigo teve filho ele não quis liberar o rapaz pra ir ver, pois ele não iria fazer nada na hora do parto, só a mulher que teria o filho. Imagine o que ele ia dizer de um arranhão no braço? Preferia apenas ligar e dizer: "
PS (piadinha que sobrou): À noite meu irmão e alguns amigos foram em casa para